
01 abr A transformação da maturidade em governança de integridade de terceiros.
Introdução
Os processos que suportam a governança de integridade de terceiros (fornecedores, clientes, parceiros, novos administradores, investidores e outros) não se esgotam nas pesquisas de background check ou de KYC (Know Your Customer), KYE (Know Your Employee), KYP (Know Your Partner) ou outras práticas do gênero. Obviamente que essas pesquisas são uma parte crucial do processo, mas no mesmo patamar de importância estão as etapas subsequentes: a avaliação do risco e as ações de salvaguarda a serem (eventualmente) tomadas no relacionamento com o terceiro.
Nossa experiência no ambiente empresarial tem demonstrado que as avaliações de risco de terceiros quase sempre assumem uma perspectiva estática e as salvaguardas adotadas consideram apenas as ações que podem ser adotadas nas esferas internas da organização, tais como a utilização de proteções e sanções contratuais, definição de volumes de operações, diversificação de parceiros na mesma cadeia de valor, dentre outras. São fórmulas absolutamente válidas e não devem ser abdicadas. Mas são limitantes – impedem que a organização capture o máximo de valor que o processo pode proporcionar.
Técnicas mais avançadas de gestão de riscos ético-reputacionais de terceiros têm sido experimentadas pelas organizações, com resultados promissores. Elas envolvem colaboração na cadeia de valor, compartilhamento de investimentos e uma visão mais abrangente de stakeholders. É razoável supor que a segunda metade desta década testemunhará uma transformação no conceito de governança de integridade de terceiros e nós da EthQuo compartilhamos neste material algumas ideias que podem servir de inspiração para sua empresa assumir protagonismo neste tema.
Esperamos lhe proporcionar boas contribuições! Boa leitura!
Ações tradicionais em gestão de risco de integridade de terceiros
Os manuais corporativos de gestão de risco de integridade de terceiros normalmente recomendam técnicas preventivas que variam de acordo com o grau e a natureza da exposição detectada nas atividades de due diligence. É comum identificar no rol de ações preventivas ações nas seguintes frentes:
- Operacional: redução do volume de transações com o terceiro; substituição do terceiro em cadeias de valor sensíveis; suspensão de atividades com o terceiro; interrupção de novas transações; exercício de opção de rescisão unilateral (exit clause);
- Financeira: acionamento de cláusulas para antecipação ou postergação do fluxo de caixa de clientes ou fornecedores, respectivamente; ativação de privilégios e garantias contratuais oponíveis ao terceiro (covenants); aplicação de multas e outras sanções;
- Institucional: divulgação de notas de desagravo ou de isenção de responsabilidade (disclaimers); declaração de apoio a autoridades em investigações envolvendo o terceiro; manutenção de uma estrutura interna voltada para gestão de crise, dentre outras.
Note que todas as ações tradicionalmente contempladas em manuais de governança de integridade apontam para a adoção de medidas unilaterais, substancialmente sob controle da própria organização, que não consideram qualquer nível de interação colaborativa com o terceiro.
Esta abordagem remete a um cenário de fricção ou ruptura do relacionamento com o terceiro – o que em muitas situações se prova prematuro, equivocado ou até injusto.
Nas relações comerciais e institucionais, é importante que as partes se mantenham fiéis aos princípios da boa-fé e da preservação das relações, no espírito de que o mínimo de dano possível atinja os stakeholders de cada grupo empresarial – estes, sim, as verdadeiras vítimas dos desvios ético-reputacionais cometidos. Este é o racional que tem levado o ambiente empresarial a registrar uma evolução nas ações destinadas à gestão de risco de integridade de terceiros.
Maturidade em governança de integridade de terceiros
As organizações com práticas de governança mais maduras são sensíveis ao fato de que um desvio ético-reputacional cometido por um parceiro de negócios deve desencadear accountability e indenizações nos níveis proporcionais, adequados e suficientes, mas sem que isto signifique suprimir qualquer possibilidade de recuperação do terceiro.
Com efeito, a imposição de ônus excessivos a um terceiro em situação de desvio ético-reputacional de pode inviabilizar a continuidade de seus negócios, com impactos indesejáveis a praticamente todos os grupos de stakeholders, tais como empregados e suas famílias, comunidades do entorno, beneficiários de programas sociais corporativos, fornecedores e parceiros financeiramente dependentes, clientes, governos, dentre outros.
E, por óbvio, a repercussão dos impactos adversos de uma questão de integridade não se restringe à cena institucional dos terceiros infratores. Sempre alcança zonas de influência e stakeholders de outros núcleos empresariais – especialmente aqueles que operam na mesma cadeia de valor.
Por tais razões, organizações maduras têm investido em compartilhar conhecimento e recursos de governança com seus parceiros de negócios menos evoluídos, com o propósito de fortalecer os pilares éticos de seu ambiente de negócios como um todo. Alguns exemplos nesse sentido incluem:
- Compartilhamento de materiais de treinamento e textos de políticas/normas internas;
- Fóruns de discussão de boas práticas e cases;
- Cooperação em planos de melhorias;
- Comissões de Compliance Officers, para discutir impactos de questões ético-reputacionais nas principais cadeias de valor;
- Colaboração na implementação de programas de integridade, compartilhando desafios, experiências e aceleradores de projeto;
- Co-utilização de recursos, ferramentas e informações de diligência de integridade de terceiros, dentre outros.
Estas iniciativas têm proporcionado resultados bastante interessantes para as organizações, em várias frentes – veja alguns exemplos:
- Influência e protagonismo: Organizações protagonistas em sua cadeia de valor e aquelas com maior nível de maturidade em governança têm assimilado um papel de núcleo indutor de boas práticas em relação aos seus parceiros de negócios, contribuindo para a disseminação da cultura ética em todo o ecossistema. Isto fortalece sua posição de liderança e gera valor reputacional.
- Prevenção de riscos: A gradual uniformização de boas práticas e de conceitos de governança de alto nível resultam em uma redução coletiva da exposição a riscos de integridade, garantindo maior proteção de valor em toda a cadeia.
- Efetividade de resposta: Ao mesmo tempo em que se protege melhor, a cadeia de valor também ganha musculatura em sua capacidade de responder a riscos, permitindo ações coordenadas, mais efetivas e com discurso consistente em meio a todos os seus integrantes.
- Redução de custos: O compartilhamento de esforços, estruturas e recursos entre os integrantes da cadeia de valor proporciona uma redução dos custos, quando comparado com investimentos isolados.
Na EthQuo, chamamos este fenômeno de “ecossistematização” da governança de integridade de terceiros. São muitos os benefícios percebidos, sem um contraponto relevante.
É importante registrar que as iniciativas em prol da ecossistematização da governança não se prestam para acobertar desvios ético-reputacionais de terceiros. Tampouco para interferir no processo de justa responsabilização (accountability) dos envolvidos na materialização de um risco e danos causados. Mas certamente vão permitir que o próprio terceiro e demais integrantes de uma cadeia de valor identifiquem meios minimizar as perdas dos diversos stakeholders afetados.
Esta é uma boa época do ano para iniciar as conversas sobre o tema em sua cadeia de valor. As discussões com seus parceiros podem ser ricas nos próximos meses e em um timing adequados para os exercícios orçamentários do último trimestre.
Esperamos ter contribuído para suas ações sobre este tema e fique à vontade para compartilhar conosco seus desafios!